domingo, 11 de janeiro de 2015

Je suis Charlie - Não deslegitimem essa luta para colocar outra discussão em pauta.

Por mais que eu evite postagens de teor político, por estar na França neste momento, não posso deixar de comentar sobre o atentado e toda a situação em torno do slogan "Je suis Charlie".




Textos e reflexões sobre o ocorrido não faltam, mas me incomoda um pouco toda essa movimentação sobre o "Je ne suis pas Charlie".
Por estar tão próximo da situação - na minha cidade, a primeira manifestação ocorreu em torno de 5 horas depois dos evento e tenho vários amigos em Paris -  me incomodam um pouco certas reações.

Por favor, não tentem usar esse momento de defesa à liberdade de expressão e contra o medo para polemizar sobre questões de proteção de minorias e imperialismo. Não tentem deslegitimar um movimento cuja luta é outra.

Para todos os que vem condenando o slogan, na minha opinião, a falha de compreensão é completa. 
O slogan "Je suis Charlie" não busca o ostracismo dos franceses de religião muçulmana. É evidente para todos que o atentado é um ataque tanto aos muçulmanos quanto à liberdade de expressão. Nas manifestações, é comum ouvir "Não às amálgamas", que quer dizer "não à assimilação do Islã ao terrorismo".
A maior parte dos franceses entende esse atentado como um golpe à cidadania por duas razões: o ataque óbvio à liberdade de expressão, mas também o ataque à soberania do Estado, representado pelos policiais feridos. 
Uma minoria se alinha, sim, à extrema direita. Mas a grande maioria dos franceses se opõe ao partido e teme esse aumento. 

Existe, um aumento da islamofobia de forma odiosa na França, incarnada principalmente por Soral, Zemmour, o FN et uma parte de direira.
Os desenhistas não tem nada a ver com isso. Para quem os conhecia de verdade (e não apenas sobre os poucos desenhos que vemos na internet), são ferrenhos humanistas que usam o humor contra o integralismo religioso em geral, seja Católico ou Islâmico.
Eu pessoalmente não leio o semanal, mas para todos os franceses, ele sempre foi um símbolo da liberdade de expressão. Mesmo os que eram completamente contra o que eles faziam. 

Li um dos textos que dizia que "as caricaturas são perigosas, e até criminosas. Isso é completamente errado, pois “crime” assume um conjunto de leis específico. E as leis daqui não são as mesmas do Brasil. O direito francês parte do princípio que o Homem é livre e “onipotente”, e cabe a lei revogar os casos as exceções. Contudo, o direito de expressão não lhes foi revogado. Ele fala em um momento de “censura positiva”. Sério? Num país que viveu uma ditadura militar? Quem decide onde está o ponto? O governo, que sempre sabe o que é bom para a população? Um comitê de especialistas em politicamente correto?
Fique claro que na França o direito à liberdade de expressão é inegociável

Ao analisar algo, é importante procurar o contexto. Não vamos nos deixar levar por imagens soltas antes de ver a crítica associada. Vamos ser um pouco mais profundos e ler a segunda página antes de falar qualquer coisa.
Eles atacavam não somente todas as religiões indiscriminadamente, mas faziam crítica social e política à todas as instituições.
Quanto aos argumentos sobre como "atacar a maioria pode mas atacar minorias não", vale lembrar que judeus também não são maioria, e que se o catolicismo já foi hegemonia no país, hoje em dia, entre os adultos entre 18 e 50 anos, a maioria é sem religião [1], e entre os católicos 38% não são praticantes.

Sobre a integração da "minoria islâmica" na França, a República Francesa busca dar todos os meios jurídicos e institucionais para que os povos de confessão muçulmana possam viver sua religião livremente.
Para os que brandem as estatísticas sobre como os "franceses tem mais acesso a empregos que os imigrantes", o observatório das desigualdades [1] mostra que se a diferença na taxa de desemprego é grande, a evolução é a mesma - ou seja, não está mais fácil para um francês conseguir emprego que para um imigrante.
O Estado francês faz o máximo para ter dispositivos que garantam a dignidade da população. É um país onde até os mais ricos usufruem da saúde e educação públicas, a todos os níveis.


O slogan é unificador e quer dizer somente "Eu recuso o medo". Porque os franceses defendem a todo custo as Liberdades pelas quais são conhecidos no mundo todo.
Não é sobre defender esta ou aquela hegemonia, é sobre liberdades conquistadas com muito sangue e que estão na base da sociedade de um país.

É o grito de um povo defendendo os valores republicanos de "Liberdade, Igualdade, Fraternidade" contra a ameaça daqueles que atacam ao mesmo tempo à liberdade e o espírito de fraternidade da nação.

Não deslegitimem essa luta para colocar outra discussão em pauta.


[1] http://www.ined.fr/fichier/t_telechargement/45660/telechargement_fichier_fr_dt168.13janvier11.pdf
[2] http://www.inegalites.fr/spip.php?page=article&id_article=1771